sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Charles em involução

O príncipe, que nunca foi encantado, acaba de comemorar o seu 60º aniversário e aparentemente começa a apresentar o processo natural de envelhecimento, digo, involução. O herdeiro do trono inglês, que estudou arqueologia, antropologia e história na Universidade de Cambridge está adquirindo feições de um de nossos ancestrais mais simpáticos. Em processo inverso ao da evolução, Charles inaugura uma nova linhagem na Casa dos Windsor. Aí a gente também imagina: será que ele também tem o bumbum rosa, que nem o do nosso amigo babuíno, de tanto levar palmadinhas da Elisabeth II mesmo aos 60 anos?

sábado, 1 de novembro de 2008

Ombros feridos

Pus-me a pensar em Zé Geraldo, negro alto, não diria aqui que ele tinha ombros de estivador, porque realmente ele era estivador, olhar perdido, barba e bigodes ralos, usando sempre o mesmo chapéu de abas caídas que quando amassado pelos sacos de açúcar mais lembrava uma cuia que um chapéu.
Como já informei, Zé Geraldo era estivador, nunca foi pachorrento para o trabalho, sempre disposto para as sacas e para a cachaça, Zé não negava serviço nem deixava garrafa pela metade. Não tinha no trapiche de açúcar negro tão forte e astuto.
Ultimamente uma coisa andava distraindo o Zé. Ele já não descarregava as sacas como dantes, Sr. Marcílio, patrão esmerado nos seus negócios, começou a notar que Zé não estava rendendo deveras. Tinha ele como um de seus melhores carregadores, mas ultimamente Zé Geraldo se encontrara abatido, desanimado e com ares de preocupação. Com um cigarro de palha sempre colado ao lábio inferior, encostado no poste ao lado do armazém, ficava vendo a vida passar até o próximo carregamento apontar na esquina, a vida ao redor do porto caminhava tranqüila, alguns automóveis, uns caminhões, muitas carroças de burro, e uns transeuntes que movimentavam e coloriam os olhos do Zé.
– Zé! Gritou Sr. Marcílio.
– Ô meu filho o que você tem? Anda com algum problema? Ta precisando de alguma coisa? È doença é?
Zé retrucou perdido
– Eu? Hum? Ah, nada não sinhô!
– O que tu tem ein hômi?
Zé titubeou, olhou para o calçamento triste, e ainda com a vista baixa falou:
– É que eu to pensando em mudar de vida, sabe, mudar de ramo pra ser gente, ter família, o sinhô sabe né!?
Sr. Marcílio respondeu quase por obrigação:
– Sei, hum, sei! E cortou logo a conversa complicada. Acabara de lavar as mãos com o Zé, detestava empregado que demonstrasse desinteresse, apatia, e no fundo, podia esperar isso de todos, menos do Zé.
Passado o embate, Sr. Marcílio resolveu apurar o que estava aperreando o seu funcionário. No dia posterior, o negro chegara ao armazém com os olhos vermelhos, visivelmente embriagado. Era motivo de chacota para os companheiros de labuta, andava costurando a ladeira com as sacas de açúcar, quando não derrubava dormia por cima delas nos cantos do armazém.
Zé Geraldo tinha virado a cabeça por causa de Jandira, mulher de cais de porto, profundíssima entusiasta de uma das profissões mais antigas da humanidade, e trabalhava porque gostava, não porque precisava. O Zé andava piongo porque a morena de quartos grandes ganhava o pão divertindo os marinheiros, como todas as outras dos arredores do cais. Mas para ele Jandira era diferente, negra de ancas largas e lábios grossos, ela seria perfeita para dona de casa, mãe de seus filhos. Mas a morena não gostava de vestir chita, e vivia de acordo com suas vontades. As coisas que ela mais prezava na vida eram ganhar dinheiro fácil e dormir durante o dia.
Os estivadores do trapiche de açúcar já sabiam do mal de Zé, a maioria divertia-se às custas do negro, que agora falava em mudar de vida, ser ajudante na marinha, talvez cultivasse a vontade de ser marinheiro, para se sentir mais caro aos olhos de Jandira. Zé acreditava que tiraria ela da vida em breve.
Como toda prostituta que se preze, Jandira tinha alguém por ela, o dono de suas funções profissionais era Ramiro, antigo malandro do cais, capoeirista de faca nos dentes, astuto gato de rua que enxergava como poucos o que acontecia em seu território.
Zé desconhecia a força e a influência que Ramiro tinha sobre suas funcionárias, mas certa noite de sexta-feira, depois de ferir as costas com fardos e fardos de açúcar durante todo o dia, ele gastava o dinheiro destinado à cachaça e as mulheres, ou melhor, a Jandira. Muito afeiçoada aos seus clientes, Jandira não dispensava serviço e cedia aos apelos bêbados do negro Zé, que nessa noite se mostrou resolvido a tirá-la da função.
Zé Geraldo, já muito bêbado, atravessou o caminho de Jandira e a segurou pelo braço.
– Nêga, vamos simbora, deixe isso daqui, nós casa, e tem uns bacurauzinho, vou trabalhar na marinha, viro marinheiro se tu quiser!
Jandira só ria debochada, balançava as ancas num vestido curto.
– Larga de ser besta homi, onde é que eu vou casar com tu, pra eu virar mulé de um só precisa muito! A negra saiu rebolando e esticando os beiços, fazendo sinal para as amigas seguirem para o cabaré da rua de baixo.
O Zé se aperreou, levantou-se com sangue nos olhos e puxou Jandira pelos dois braços apertando-a:
– Tu vai comigo agora! Ela tentou se soltar sem sucesso, o bíceps de Zé Geraldo luzia à luz turva da noite. Desaforada como poucas ela cuspiu na cara do negro.
– Me solte seu merda, filha da puta, não gosto de pobre nojento como você não!
Zé ficou cego, terrivelmente ultrajado por aquela que era para ele a mulher, entre as mulheres, esqueceu de tudo, fechou a mão na cara de Jandira. A puta caiu devido ao impacto do murro que em ocasiões normais só seria aplicado em cabra macho.
Um trançado de pernas cortou o ar. Ramiro atingiu Zé Geraldo no peito com um rabo-de-arraia, o estivador voou longe.
– Levanta filha da puta, pra eu te cortar com minha navalha, ta pensando o que seu corno? Só quem pode bater nela sou eu!
Jandira via tudo de longe, sentada na calçada com a cara roxa, mas ainda gritava:
– Mata essa peste, eu quero esse merda morto!
Zé ainda zonzo tentava se levantar para enfrentar as provocações de Ramiro, rodou de joelhos que nem faz um cachorro antes de deitar, tentou equilibrar-se, voltou a cair. As mulheres, os boêmios e os bêbados riam e faziam chacota dele. Todas as vezes que tentava se levantar, Ramiro dava-lhe um chute, os golpes abriram-lhe o supercílio, toda tentativa era rebatida com novo chute. O sangue espirrava, a corja noturna saia dos covis aguçada pelo cheiro de sangue e humilhação.
Ao fim do espetáculo deixaram o Zé no chão, bêbado, sangrando e sem dignidade alguma. Passados quatro dias, ele não apareceu para trabalhar, Sr. Marcílio já estava sabendo de toda história e pensou que ele não voltaria mais, pela vergonha e já tinha colocado outro em seu lugar. Já no terceiro carregamento do quinto dia o Zé apareceu.
– Sr. Marcílio, eu preciso falar com o sinhô!
– Diga lá rapaz! Retrucou o velho!
– Eu não sei se o sinhô soube mas...
– Sim, soube sim, mas já coloquei outro no teu canto!
– Mas não tem carência de ninguém pra levar açúcar pra venda nos armazéns não, a miúdo?
– Rapaz pode até ter, mas os dois meninos que trabalham levando o açúcar já tão com os carrinhos.
– Mas nem que eu carregue nas costas, me arranje meu lugar de novo!
– Hômi, e tu vai bater a cidade subindo e descendo ladeira com um saco ou dois nas costas?
– Bato, preciso trabaiá!
– Pois se quiser comece agora, cuspiu sr. Marcílio com violência, encerrando a conversa.
Zé Geraldo se arrumou, aprumou a coluna, deitou o chapéu de cuia com panos dentro da para aliviar o peso das sacas, levantou a primeira, pediu ajuda para colocarem a segunda, perguntou onde era e seguiu. Há dias envergonhado e com raiva de si mesmo, andava ao sol com as sacas quando cruzou com Ramiro, que passou alisando o bigode com a navalha e olhando para ele como se o desafiasse. O estivador viu o tamanho de sua covardia passar por ele. Teve ímpetos de matar Ramiro à traição, rasgar sua carne e pintar de vermelho todo o céu para colorir aquele manhã cinza, nunca as sacas lhe pesaram tanto, se multiplicavam uma a uma. Seus ombros bravios não carregavam somente dois fardos, mas todo peso do mundo.





sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Good Bye, blue eyes...

Bom, mesmo com a demora, não podia deixar de expor aqui uma das grandes lendas Hollywoodianas, Paul Newman nos deixou dia 27 de setembro, vítima de câncer. Astro de filmes que marcaram minha adolescência como Gata em teto de zinco quente, O mercador de almas e o mais recente e ótimo Estrada para perdição, Paul deixou mais vazia minha paixão pelo cinema atual, e mais viva minha veneração pelos grandes clássicos, agora mais gris sem os seus olhos azuis.
Desculpem pela ilustração, fiz às pressas!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Ronaldo é garoto propaganda em novo anúncio


Gente eu não resisti e fiz uma piada, vejam em primeira mão
o novo anúncio da johnson & johnson com seu mais novo garoto propaganda.
Arrasou o fenômeno! Ui

segunda-feira, 24 de março de 2008

Stairway to heaven

Na onda do meu saudosismo desenfreado, não posso deixar
de lado uma dos símbolos do rock'n roll

Brando, the legend

Eis minha pequena homenagem a
um dos atores mais incríveis que o mundo já viu

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Adorável pecado

Vejam só o dolce far niente de um dos meus personagens preferidos



Devo retratar-me por meio desta, por todo este período de trevas, de verdadeira escuridão intelectual que se abateu sobre mim nestes últimos meses. Certamente deve ter sido reflexo do fim de ano, a proximidade das férias em dezembro passado me deixaram um tanto eufórica, e por que não dizer preguiçosa.
Bom, tal preâmbulo cheio de arrodeios e linguagem de redação oficial é só para esconder o fator preponderante pelo qual abandonei este pequeno veículo de comunicação durante estes meses, a preguiça.
Sou capricorniana, ascendente em Leão, não sei no que isso implica ou se só é desculpa de amarelo pra comer barro, mas o que eu mais gosto de fazer na vida é dormir, ou simplesmente ficar de bunda pra cima deitada com o ventilador na minha cara. O blog foi abandonado mais uma vez, espero me redimir perante as 3 pessoas que lêem isso aqui, mas percebam e avaliem a força motriz de toda essa apatia, a preguiça.
A tal da acídia (nome bonito da preguiça, ou ainda segundo meu conterrâneo Aurélio “abatimento do corpo e do espírito; moleza, frouxidão”) acaba por ser senhora das forças motoras e das sinapses cerebrais. Até que o fim do ano passou, as férias também, meu aniversário já se foi, o carnaval ta na porta e me perguntei: vou mandar a minha amiga acídia passear! E aqui estou de volta, para um 2008 de luta, e porque não dizer de "sangue, suor e cerveja".
Pecadora assumida, estou aqui de forças renovadas (até então), e animada com as incríveis possibilidades de mais trezentos e poucos dias pela frente. Vejam só, dos sete pecados capitais, a preguiça é justamente o sétimo, talvez porque seja o mais inofensivo deles em relação aos outros pelo menos, já que penso que o preguiçoso só faz mal a ele mesmo. Minha mãe adorava dizer sempre quando eu acordava de cara inchada para ir à escola: “A preguiça é a chave da pobreza!”, aquilo me perseguiu durante anos a fio. Outra imagem que sempre me acompanha é a ilustração de uma das lições de catecismo da quarta série do ensino fundamental em uma escola católica no meio do agreste-sertão de Alagoas. O pecado da preguiça era ilustrado por uma caveira cheia de teias de aranha ao redor, com comida do lado do sofá, e uma televisão à frente.
Acho que aquilo me persegue até hoje, o imbecil do sujeito da ilustração morreu de inanição, e nem pra esticar o bracinho pra pegar a comida ao lado do sofá!? Bom, sei que salvo raras exceções não tenho preguiça para trabalhar, mas tenho para todo o resto. Tenho para acordar, quando acordo tenho para levantar da cama, quando levanto tenho para escovar os dentes, quando escovo passo quase meia hora num diálogo mudo com o chuveiro, quando tomo banho às vezes não como, e quando como chego esbaforida e atrasada no ponto de ônibus, aí sim, aos pouquinhos ela começa a ir embora, mas aos sábados e domingos o negócio é verdadeiramente complicado.
A acídia não larga do meu pé, então prefiro abraça-la e espero ela me fazer feliz por mais umas 5 horas cheias de sono, controles remotos e pequenos ronquinhos que fazem parte da parte mais feliz do meu ser, aquela que é só preguiça.
Um beijo a todos os preguiçosos como eu, ahhhhh e obrigada ao Nealdo que me intimou a voltar a escrever, mesmo que fosse um texto sobre a preguiça.